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O OLHO MÁGICO
O OLHO MÁGICO
Ainda estava escuro quando
Pedro acordou. Sua mãe e a pequena irmã já estavam de pé. Comiam algumas
bolachas secas encontradas no dia anterior. Ele sentou, esfregou os olhos e
pôs-se a orar. Em geral fazia esse ritual sem prestar muita atenção ao que dizia.
Quase já não havia mais fé em seu coração. Quando se tem apenas oito anos,
vivendo em um grande e fétido aterro, é difícil manter a fé. Mesmo assim
gostava de rezar o Pai Nosso que o falecido pai lhe ensinara. De alguma forma a
presença do amigo podia ser sentida nesta pequena parte da manhã. "Toma
café, come a bulacha e vem, o caminhão já, já chega". Ele atendeu à ordem
da mãe e enquanto tomava café contemplava o dia pela janela embaçada do
barraco. No horizonte as imensas montanhas de lixo em cujos cimos sobrevoavam
dezenas de urubus.
De botas e luvas improvisadas Pedro apanhou seu saco e partiu para o
encontro com o primeiro caminhão do dia. O sol já mostrava sua força dourando a
fina pele do menino, esquentando sua cabeça e iluminando um cenário apocalíptico.
Ao seu lado juntavam-se outros meninos, meninas, mulheres e homens, todos
vestidos com grossos farrapos e botas que buscavam dar-lhes alguma proteção,
mas que na verdade lhes emprestavam a aparência de um exército cabisbaixo e
cansado.
Quando o caminhão chegou, seres humanos, pássaros, roedores e cães
vira-latas juntaram-se na busca frenética de encontrar algo de valor e, com
sorte, o que pudesse servir de comida. "Olha mãe, o que é isso?". A
mulher tomou das mãos da pequena menina um objeto metálico. Observou-o e jogou
fora. "Um olho mágico, besteira. Procura comida, anda!". De todas as
palavras que Pedro ouviu somente duas se fixaram em sua memória: olho mágico.
Como poderia ser? Isso existe mesmo? O garoto apanhou o objeto e após manipulá-lo
sem saber direito como usar, o encaixou no olho direito e mirou o horizonte.
O olho o transportou para uma praia não muito longe dali. Em vez de
urubus, lindas gaivotas. As montanhas não eram de lixo, mas lisas e de um bege
reluzente e o mesmo sol que agora queimava sua pele iluminava o mais azul dos
mares. O olho era realmente mágico.

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