Foto de Djordje Petrovic
LIBERDADE ILUSÓRIA
Quando
ele acordou naquela manhã havia algo diferente. Uma excitação tomava conta de
seus pensamentos e de suas atitudes que a partir daquele momento estariam
sempre envolvidas em uma incontrolável alegria. Uma bomba em seu peito estava
prestes a explodir e sua mente não tinha o menor interesse em barrar esse
impulso puramente emocional. Ele soltou um desses gritos que se soltam sempre
que algo muito bom acontece como uma promoção no trabalho, um bom dinheiro
extra ou ainda um filho que nasce. Foi assim que ele começou seu primeiro dia
de solteiro.
Tomou um longo banho e ficou feliz
porque ninguém o censurava sobre a demora e um possível atraso no trabalho.
Ninguém o questionou também quando às seis da manhã ele ouvia seu rock’n roll e
celebrava a tão sonhada liberdade. Como amou a liberdade naquela manhã!
No trabalho os amigos e amigas
notaram sua mudança, mas ninguém ousava perguntar-lhe, pois poucos sabiam do
que se tratava aquela novidade e muitos não tinham com ele qualquer
aproximação, fruto do distanciamento tantas vezes advogado e cobrado por ela.
Hoje, porém ele experimentava a intimidade.
Confidenciou,
ouviu confidências e em apenas um dia viu seu circulo de amizades aumentar
consideravelmente. Quase podia adivinhar o que se cochichava nos corredores
quando passava e notava cantos de olhos a lhe observar. “Nossa, como ele é
extrovertido”, “Por que não o conhecíamos assim antes?”, “O que o prendia antes
de hoje?”. Todas essas suposições e devaneios, embora totalmente improváveis,
acariciavam seu ego e alimentavam a certeza da felicidade que ainda estaria por
mostrar-se em sua plenitude. Como ele amou a coletividade naquele dia de
trabalho!
No fim do expediente foi convidado
pelos novos amigos a acompanhá-los para o happy
hour de sexta-feira. Como desejou aceitar esse convite há tempos atrás!
Hoje ele diria sim! Então saíram juntos ao bar mais badalado próximo ao
trabalho.
Ele
bebeu, cantou, conversou, ouviu desabafos, planos frustrados, sonhos não
realizados e promessas que nunca se cumpriram e que nunca se cumpririam. Em
dado momento toda essa festa de palavras e pensamentos começou a surpreendê-lo
e muito o admirou a capacidade da solidão e da tristeza alheia persistirem em
meio a tanta aparente alegria. Como o
assustou a falsidade humana naquela noite!
Foi para casa sob protestos e
promessas de novos encontros. Entrou no carro e se sentiu aliviado por saber
que poderia chegar a casa à hora que bem entendesse.
Chegou,
guardou o carro, adentrou a sala, largou roupas e sapatos em qualquer lugar.
Abriu a geladeira, sentou no sofá e ligou a TV que nada de bom oferecia à
distração. Jogou o controle ao lado e notou um profundo vazio no peito e teve
saudade de toda excitação que o fez gritar pela manhã. O que aconteceu com
aquela alegria matutina? Enquanto fazia a si mesmo perguntas sem respostas
observava ao seu redor toda desordem que conseguira fazer em apenas um dia.
Como detestou a liberdade naquela noite!
Tomou um banho curto e sentiu falta
de outra voz na casa a reclamar da água que caia indefinidamente. Fechou a
torneira e ao sair percebeu as mensagens no aplicativo do celular. Fotos da
noite mostravam sua nova vida e os companheiros e companheiras da boemia. Todos
de copos na mão, muitos risos e alegria. Lembrou-se então de que estivera
naquele lugar, naquela mesa com aquelas pessoas. Percebeu que uma foto não era
capaz de mostrar nada mais que um sorriso ocasional e que por trás de toda
aquela festa havia dramas pessoais, histórias verdadeiras cheias de sonhos,
alguns realizados e muitos frustrados. E notou finalmente que horas de alegrias
passageiras, palavras ao vento, uma dor de cabeça e uma ressaca aguardada, não
ajudavam a mudar muita coisa na dura realidade da vida. Naquele momento ele se
decepcionou com a coletividade ao mesmo tempo em que também odiou a falsidade
humana.
Já deitado em sua cama percebeu entre
as quatro paredes do quarto que estava só. A solidão que sentia agora era maior
que a alegria, a liberdade e a coletividade que preenchera seu dia. Naquela
noite ele quebraria sua primeira promessa. A que fizeram a si mesmos antes de
se distanciarem. Só assim, ambos em comum acordo, sabiam que seria possível
superar os primeiros dias. Dormiu molhando o travesseiro de lágrimas. Ao seu
lado a luz do celular iluminando o quarto e o texto da mensagem enviada sem
resposta: Saudade...

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