Foto de Simon Matzinger
UM CONTO DE NATAL
Aquela
noite passara mais rápida que as anteriores. Em meio aos carros e faróis
reluzentes ele sentava na calçada para contar as moedas apuradas na noite de
trabalho limpando dezenas, talvez centenas de para-brisas. Ao seu lado o colega
de escola avisava que continuaria até tarde e que se ele quisesse poderia ir
sozinho subir o morro. Carlos se despediu do amigo e prometeram um ao outro que
se encontrariam na escola na próxima segunda-feira. E era noite de natal.
Carlos subiu o morro antes das dez
da noite. Pelo caminho para o barraco cumprimentava os moradores da comunidade.
Via gente que descia o morro para trabalhar no mesmo sinal em que ele estivera
há pouco. Moças maquiadas, de roupas curtas que riam e se divertiam e falavam
alto como que a mostrar a todos ao redor que eram felizes. Como se a felicidade
testemunhasse que eram fortes para suportar a noite que então começava.
“Aê muleque! Ralando
pesado hein?! Num já te disse que aqui cum a firma tu trabalha pouco e ganha
muito?! Quando quiser é só falar valeu? Segue teu rumo, vai na paz”.
Com voz de homem, de fuzil em punho, o moço que acabara de falar a Carlos tinha
apenas oito a mais que ele. O menino agradeceu e recusou mais uma vez dizendo
que a mãe não se agradaria, contudo era sua a decisão de não entrar no tráfico.
Com nove anos de idade o garoto já testemunhara muitos amigos morrerem naquela
vida.
O
caminho para o barraco era longo e se estreitava à medida que se atingia o
ápice do morro. Um barraco simples feito de tapumes de construção civil catados
e levados com muito esforço pela jovem mãe e por Carlos. O abrigo era pobre,
mas caprichado na limpeza e na organização. Dois cômodos e um banheiro
protegiam a pequena família de três integrantes do frio, da chuva e do sol.
O
garoto chegou, foi abraçado pela mãe e recebeu de suas mãos o pequeno
irmãozinho de dois anos. Carlos tirou do bolso o que conseguira no sinal e
entregou à sua mãe. Ela contou o dinheiro, juntou com mais uma pequena parte
que estava em uma lata, sorriu para o menino e disse: “Hoje teremos uma ceia!”. Assim ela deixou Carlos e desceu o morro.
Abraçado
ao pequeno irmão, Carlos contemplava a cidade iluminada. Admirava as milhares
de luzes dos faróis dos carros e as muitas antenas de celulares que enchiam sua
vista de beleza. Pequenos shows de fogos de artifício pipocavam em diversos
lugares daquela paisagem urbana dando um brilho especial àquela noite. Dez
metros à frente da pequena casa, em uma laje abandonada, um olheiro do tráfico
fumava um cigarro de cócoras, na outra mão uma pistola automática.
Ao
lado da morada de Carlos, o único vizinho escutava e cantava em um inglês
improvisado um sucesso da disco music
da década de 70. Bianca, nome de guerra, era uma transexual cujo tempo já lhe
tirara a beleza e a vontade de se expor. Era na música saudosa dos fins de
semana que se podia ainda ouvir sua voz. A mãe de Carlos adentrava o barraco
naquele instante.
Arroz
temperado com ervilhas em conserva, farofa de cebola e alho, um frango assado
no velho forno e um refrigerante configuravam a modesta ceia preparada para
aquela noite de natal. Sob a luz da única lâmpada da casa fora montada uma mesa
com quatro cadeiras e dispostos de forma simples, porém ordeira, os copos,
pratos, talheres e alimentos.
Mãe
e filhos se sentaram, Carlos ainda com o pequeno irmão no braço observava a mãe
em silêncio. Ela olhou para o garoto e para a porta da rua. Lá fora tocava a
música nostálgica de Bianca. Ela se levantou e disse: “Espera aqui Carlin”. Dois minutos depois a mãe de Carlos adentrava
a sala acompanhada de Bianca. A peruca desarrumada e a maquiagem borrada
denunciava que havia chorado, agora, porém sorria e agradecia o convite. Meio
desajeitada buscava o prato e os talheres para começar a se servir. Nesse
momento Carlos pediu um minuto. “Perai
mãe.” Saiu e pouco tempo depois entrava acompanhado do olheiro. Em sinal de
respeito o homem escondeu a arma, jogou fora o cigarro, agradeceu o convite e
sentou-se ao lado de Bianca. Após uma pequena oração os cinco começaram a comer
e o gelo inicial pouco a pouco foi se quebrando naquela ceia natalina.
Como
estava no topo do morro, o barraco de Carlos era o mais próximo do céu.
Contudo, naquela noite havia uma estrela mais próxima da terra, na verdade mais
próxima do barraco de Carlos. Ao contemplar essa estrela, através de uma brecha
entre as telhas, Carlos percebeu que naquela noite Deus estava bem próximo
dele, na verdade Carlos viu que Deus estava nos olhos esperançosos da mãe, no
sorriso ingênuo do irmão, no cansaço da vida de Bianca e no riso ocasionalmente
despreocupado do olheiro. Naquela noite Carlos aprendeu, sem que ninguém lhe
explicasse com palavras, o real significado de amar incondicionalmente.

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